O hijab é sexista, não antirracista

Texto de Aliaa Magda Elmahdy. Tradução de Khadija Kafir 16-03-2016.

Quando eu soube do evento intitulado Hijab som politiskt motstånd (o hijab como resistência política) e li sua descrição, percebi a importância de fazer protesto em frente ao local onde ele aconteceria, de modo que as outras vozes dos países de maioria islâmica fossem ouvidas, e que a propaganda apresentada pelo evento não é a única informação sobre o assunto.

O evento aconteceu dia 6 de março, dois dias antes do dia internacional da mulher, no centro Mångkulturellt (multicultural) em Fittja. Apresentava o hijab como algo feminista e antirracista. Eu acho que fazer o marketing do hijab desta maneira é danoso às mulheres de famílias islâmicas, ao status das mulheres em geral e às não muçulmanas que vivem em países de maioria islâmica.

O hijab é apresentado de maneira diferente nesses países. As mulheres são comparadas a objetos para serem consumidas e possuídas pelos homens. A elas se diz para serem como doces embalados ou diamantes preciosos escondidos, enquanto se pergunta aos homens como eles podem cobrir seus carros, mas deixarem suas mulheres andarem descobertas. Só que as mulheres são pessoas, não objetos.

Ordena-se às mulheres que se cubram para não excitarem os homens, não serem estupradas e não corromperem a sociedade. Quanto mais a ideologia sexista do hijab se espalha, menos segura se torna a sociedade para todas as mulheres, pois elas e seus corpos são vistos como objetos sexuais, ao contrário dos homens que são os usuários. E quanto mais se cobrem, mais são culpadas por serem abusadas e solicitadas a desistirem de seus direitos.

Quando eu falo do hijab, não falo de um pedaço de pano, mas sobretudo de um conjunto de regras sobre como as mulheres deviam se comportar e se esconderem. Uma mulher velada não teria, por exemplo, liberdade de movimento, ou liberdade sexual.

Uma vez que as mulheres são vistas como propriedades e honra dos homens, a família da mulher, os parentes, o marido e até a família do marido interferem em como ela se veste. As mulheres são até mesmo tratadas como propriedades públicas, então se a família de uma mulher falhar em controlá-la, estranhos vão fazer o serviço, corrigindo sua aparência e seu comportamento com violência sexual.

Conheci incontáveis mulheres que foram forçadas ou pressionadas a usarem o hijab, e que queriam tirá-lo, mas temiam o encarceramento, as surras e/ou a rejeição social. Minha melhor amiga foi trancada em uma instituição para doentes mentais depois que tirou o hijab que fora coagida a usar desde criança, e só foi considerada sã o bastante para sair de lá quando o usou outra vez contra a sua vontade. Também conheço uma mulher que foi trancada no apartamento dos pais e pulou da janela do segundo andar para escapar a ameaça de morte pela própria família depois de ter tirado o hijab. Afora outras incontáveis mulheres que foram aprisionadas, surradas, submetidas a testes de virgindades, tiveram seus cabelos raspados e seus livros rasgados por resistir a obrigação do véu.

Algumas mulheres só usam o hijab na frente de suas famílias, enquanto outras só usam quando vão pegar um transporte público. Em sociedades onde usar véu é a norma, uma mulher não velada não pode se desviar dessa regra sem correr certo risco. Some-se a isso o fato de serem vítimas de lavagem cerebral desde a infância para acreditarem que serão penduradas pelos cabelos no inferno se não usarem. Que escolha tem as mulheres que vivem nesses países, ou que escolha têm aquelas que vivem em famílias islâmicas no Ocidente?

A maioria das pessoas tende a se adaptar a normas sociais e sabem de seu lugar na sociedade. É por isso que existem mulheres defendendo o sexismo, e é por isso que há negros defendendo a servidão, ou pelo menos vivendo em condições humilhantes que tiram sua dignidade. E é especialmente verdadeiro o fato de as mulheres aceitarem o sexismo, uma vez que nunca existiu uma sociedade feita apenas por mulheres e a maioria das pessoas prefere ser aceita em um grupo a se defenderem sozinhas. O fato de algumas mulheres defenderem a opressão não significa que ela seja justa ou que não faça mal às mulheres.

Se muitas mulheres defenderem o hijab em vez de se oporem, especialmente em público, isso é devido aos riscos desta última atitude. As mulheres que tiram o hijab ou rejeitam viver sob o controle dos homens de seus países acabam vivendo em abrigos ou endereços protegidos e são ameaçadas pela família e pelos estranhos. Aquelas que escolhem falar e ajudar as outras ficam em um risco maior ainda.

Eu recebo mensagens de mulheres que se queixam a mim sobre a opressão que elas vivem diariamente, mas a maioria delas está muito assustada, ou estão preocupadas com o que as pessoas vão dizer, para falarem por si mesmas.

O hijab é uma versão estrita e extrema da cultura sexista contra a qual as feministas ocidentais lutam, mas muitas delas estão abrindo uma exceção para ele e até mesmo acham isso uma atitude feminista. As mulheres que exigem os mesmos direitos para todas são consideradas de um “feminismo ocidental”, mas eu não acho que tal divisão no feminismo seja necessária.

Em vez de se focarem em tópicos específicos das mulheres orientais, como os testes de virgindade, as tão chamadas “feministas islâmicas” se focam em questões que não são especificamente femininas, como o racismo, que também é um tópico importante, mas que não deveria ser priorizado em detrimento dos direitos da mulher, pois com isso elas preservam algumas formas de discriminação contra as orientais. Na visão de tais feministas, elas não precisam ter os mesmos direitos que suas irmãs ocidentais. O feminismo é um movimento para a mudança, mas as feministas são mais conservadoras do que progressistas.

Quando o Egito foi colonizado pela Grã-Bretanha, as mesmas mulheres que lutaram contra a ocupação britânica começaram a desafiar as regras do véu e iniciaram um movimento feminista do mesmo modo que as ocidentais exigiram seus direitos na Revolução Industrial. Ainda que o evento apresente o véu como um ato anticolonialista, tal argumento leva a estigmatizar quem está lutando pelos direitos das mulheres ou leva a pensar que as pessoas de crenças diferentes nos países islâmicos são traidoras, e isso torna difícil para tais sociedades se desenvolverem como o ocidente se desenvolveu e ainda se desenvolve.

Os indivíduos dentro de um grupo não deveriam ser pressionados para aceitar esse mesmo grupo. Há quem pense que os ocidentais estão apenas tolerando a diversidade, quando na realidade tais pessoas estão atrapalhando as que estão lutando para tornarem as sociedades conservadoras mais diversas e respeitadora do indivíduo.

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Aliaa Magda Elmahdy (2)Sobre a autora: Aliaan Magda Elmahdy é uma ex-muçulmana egípcia, e integrante do grupo feminista FEMEN, que ficou muito conhecida pela polêmica que causou ao postar fotos sem roupas no seu blog. Procurou asilo político na Suécia depois de ser ameaçada por suas visões feministas e anti-islâmicas. Uma de suas fotos mais polêmicas é uma em que ela aparece menstruando na bandeira do ISIS, junto com outra integrante do grupo FEMEN, que por sua vez faz pose de estar defecando em cima dessa bandeira.

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