A escravidão sexual na Arábia Saudita vai acabar?

bondage burca

Texto de Taslima Nasreen (2015). Tradução de kadija kafir 13 -10 – 2015 link para o original

Uma notícia intrigante foi publicada no mundo árabe uns dias atrás – uma sex shop está chegando na cidade mais sagrada da Arábia Saudita, Meca. E é uma sex shop “halal” (permitida). Não tenho a menor ideia de quais são as condições e termos para que uma sex shop seja considerada halal (lícita) ou haram (ilícita). Eu também quero saber se nesta sex shop uma mulher será capaz de comprar sozinha para suas necessidades pessoais. Em um país onde as mulheres não têm a mínima liberdade pessoal além de serem escravas sexuais dos homens, não existe dúvidas de que uma sex shop aberta lá será exclusivamente para os prazeres sexuais deles.

Os homens da Arábia Saudita gastam muito de sua enorme riqueza em sexo. Eles vão a vários países em turismo sexual e gozam da companhia de prostitutas caras, e então perambulam livremente em sex shops de países estrangeiros. De agora em diante, todavia, eles não vão mais ter o problema de ter que fazer uma viagem para fazerem compras, pelo menos as relacionadas a sexo. Para EL Asira, a marca que se ajusta a Sharia e que se originou em Amsterdam e que tem o apoio de Beate Uhse, irá em breve se ramificar à cidade sagrada.

Até agora, as sex shops da Europa e da América ainda não chegaram em países progressivos da Ásia, mas chegaram a Arábia Saudita, a sociedade mais conservadora e ortodoxa do mundo, onde as mulheres são vistas como meras genitálias ambulantes.

O rei saudita, Abdullah, tinha 30 esposas. Uma delas era Alanoud al Fayez, de quem se divorciou em 1985. Mas as quatro filhas são prisioneiras nos palácios reais sauditas. Jawaher, Maha, Sahar e Hala são encarceradas em todo o sentido da palavra. Elas não são livres para colocar os pés fora das paredes do palácio. Elas mal recebem duas refeições diárias e seus meios irmãos as espancam sem pena. Algumas das irmãs estão com idade próxima dos 40 anos, mas não foram autorizadas a se casarem.

Alanoud, que impôs a si mesma um exílio em Londres nos últimos anos, quebrou o silêncio e falou para a mídia internacional dos abusos impostos a suas filhas. Sem sucesso, é claro. Se a nação mais poderosa do planeta, os Estados Unidos, abaixa a cabeça e presta obediência à poderosa casa de Saud, quem ousa protestar?

Barack Obama fez uma visita de alto perfil para a Arábia Saudita uns meses atrás, acompanhado pela mulher. Ninguém se lembra de nenhum pedido a ele para que alivie a situação das irmãs presas no palácio real, ou a condição das mulheres do país em geral.

É assim com a Arábia Saudita. É como uma criança teimosa – o que lhe dá na telha ela vai em frente e faz. As mulheres sauditas não podem respirar ao ar livre se não estiverem cobertas dos pés a cabeça. Elas não têm direito a liberdade de expressão. Elas não podem conversar com pessoas do sexo oposto porque é considerado proibido. Não podem pegar carona com ninguém sem o medo de uma execução. Elas são punidas cruelmente se forem vítimas de estupro ou tortura.

As leis primitivas do século sete ainda prevalecem sobre as do século 21. Não se houve falar em liberdade de expressão. O blogueiro ativista Raif Badawi, criador do web site Free Saudi Liberals (liberais sauditas livres) ainda leva chicotada toda semana por ousar em ter aspirações de liberdade de pensamento. Arábia Saudita não dá a mínima para os pilares da modernização e civilização. Este país, sem o menor senso de ética e caráter, fica sem punição uma vez que não existe nação corajosa o suficiente para enfrentar a ira de um país rico em petróleo.

Tais são as circunstancias sob as quais a Arábia Saudita abriu suas portas para uma sex shop. O que essa novidade vai fazer com os homens sauditas? Bem, agora eles podem ter cintos de couro, máscaras, grilhões e todo tipo de armamento que podem usar para tratarem as mulheres como escravas sexuais. Para forçá-las em jogos sexuais de dominante vs submissa. Trazer o primitivismo brutal de suas atitudes patriarcais contra as mulheres, infringindo-as um novo tipo de tortura sexual. E como já é de praxe isso vai ficar sem punição.

Se houver de fato qualquer prazer a ser acrescentado por essas lojas, será exclusivamente para os homens. As mulheres não participam dessas coisas. Aquelas que não têm direitos humanos tampouco devem aspirar a direitos sexuais. E aquelas que não têm liberdade sexual ou direito, não têm prazer. Escravas sexuais não sentem prazer com o sexo – precisam primeiro sair de sua escravidão.

O mundo fica se perguntando quando é que esta nova geração de jovens politicamente conscientes irá soletrar a sentença de morte para esta dinastia. O tempo os aguarda.

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taslima nasrinSobre a autora: Talisma Nasrin é uma ex-muçulmana lésbica nascida em Bangladesh. Formada em Medicina, Nasrin é mais conhecida no mundo por seus escritos e suas críticas à religião islâmica e sua nefasta influência na opressão das mulheres. Em sua autobiografia, intitulada Amar Meyebela, relata sua sofrida infância e faz críticas a Maomé, o que lhe valeu represálias e proibição de vender o livro. Nasrin se define como humanista secular, e não tem hoje nenhum tipo de crença.

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