Samaritanos e Moisés ou mancada de Maomé?

Texto de Ali Sina (2010). Publicado por khadija kafir em 04-08-2015. Link para o original.

Na Bíblia (Êxodo, 32) há uma história sobre os israelitas adorarem um bezerro quando Moisés foi para o Monte Sinai receber os Dez Mandamentos de Deus. Em seu retorno, Moisés ficou irado e ordenou: “cingi, cada um de vós, a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo acampamento, de porta em porta, e matai, cada qual, a seu irmão, a seu amigo, a seu parente”(Êxodo 32:27). Nesta história, os culpados são os israelitas e Aarão, o irmão de Moisés, que se deixou influenciar por eles.

Este incidente está relatado no Alcorão (20: 85-88, 95).

E Deus disse: “Em tua ausência, tentamos teu povo, e o samaritano o desencaminhou.” Moisés voltou aos seus, zangado e penalizado, e disse-lhes: “Não recebestes de Deus promessas favoráveis? Pareceu-vos que demoravam a ser cumpridas? Ou quisestes chamar sobre vós a ira de Deus e por isso falastes a nosso encontro?” Responderam: “Não faltamos ao encontro por nossa vontade, mas mandaram-nos carregar os ornamentos do povo, e nós os jogamos no fogo, e o samaritano fez o mesmo”. Tirando em seguida dos ornamentos queimados um bezerro que mugia. Depois, todos disseram: “Eis vosso deus e o deus de Moisés. Terá Moisés esquecido?” (…) Moisés disse: “E tu, que tens a ver, Ó samaritano?”

Na versão corânica os culpados são os samaritanos que desencaminharam os judeus para adorarem ao bezerro. Mas na história original da Bíblia não há a menção a nenhum samaritano. Quando questionados, os muçulmanos dizem que a Bíblia está corrompida. Todavia, na época de Moisés, Samaria não existia e não havia ninguém reputado como samaritano.

De acordo com o primeiro livro dos Reis (16:24), a Samaria era uma colina pertencente a Shemer que foi comprada pelo rei Omri onde ele fundou a cidade de Samaria por volta de 870 A.C. Os samaritanos como povo distinto somente apareceram após o exílio do Reino do Norte de Israel e o restabelecimento da área sob o rei Sargão II depois de 722 a.C.

Moisés viveu 1400 anos a.C. Isto foi há cinco a sete séculos antes de que alguém pudesse ser chamado samaritano (Sameri). Assim, a explicação do Alcorão sobre os samaritanos levarem os judeus a cultuar um bezerro não pode ser correta. Na época de Moisés, a Samaria não existia e ninguém podia ser cidadão de uma cidade inexistente.

Nós sabemos que Maomé não era um homem esclarecido. Ele tinha ouvido falar das histórias da Bíblia como foram narradas por contadores de histórias, mas pelos seus erros é justo dizer que ele mesmo não leu o livro. Então de onde ele tirou a ideia de os Samaritanos levarem os judeus à idolatria?

A resposta a esta confusão pode ser encontrada em outra historia sobre cultos a bezerros narradas no mesmo livro (1Reis 12: 26-33). Este episódio aconteceu durante o reinado de Jeroboão. Foi a época quando os judeus foram divididos em dois reinos, o reino do Norte de Israel e o Reino do Sul de Judá. Jerusalém ser o principal centro de culto para todos os judeus ficava em Judá. Cidades sagradas atraem peregrinos, promovem o comércio e geram renda. Jeroboão, que era o rei de Israel, pensava que não ter um lugar sagrado de culto em seu reino enfraquecia a sua posição. Ele decidiu construir um templo na Samaria, a sede do Reino do Norte, e adorná-la com estátuas de dois bezerros de ouro para se rivalizar com Jerusalém como centro de culto.

Estudiosos bíblicos, como Richard Elliot Friedman, acreditam que a primeira história de judeus cultuando o bezerro de ouro durante a época de Moisés, a qual o Alcorão alude, na verdade nunca existiu. Friedman acredita que esta história foi fabricada pelos escritores reais da Bíblia, os sumos sacerdotes e os guardiões do templo de Deus em Jerusalém, por volta de 700 a.C. para desacreditar Jeroboão e seu templo no reino do Norte. Eles inventaram a história de Moisés e o bezerro de ouro, reivindicando que isso provocou a ira e a punição de Deus na época de Moisés.

Isto certamente mandou uma forte mensagem aos judeus que o Templo erigido por Jeroboão era inaceitável por Deus. Mais provavelmente, os bezerros adornando o templo de Israel eram simbólicos e não foram moldados para serem objetos de culto. Ainda assim, a história fabricada dos judeus idólatras na época de Moisés provocando a ira de Deus fez efeito. A iminência de um novo templo no Norte não teria apenas diminuído a importância de Jerusalém como centro religioso único para todos os judeus, mas os teria também separado religiosamente, uma nação já dividida na política.

Oséias ecoou sua desaprovação quanto a esse templo com os seguintes termos:

Rejeita o teu bezerro, Samaria! Minha ira inflamou-se contra eles. Até quando serão incapazes de pureza? Porque ele é de Israel, um artista o fez, ele não é de deus. Sim, o bezerro de Samaria será desfeito em pedaços. – Oséias 8: 5-6

Isto foi uma advertência aos judeus de 700 a.C vivendo na Samaria. Não tem nada a ver com a história de Moisés e o bezerro de ouro. Maomé devia ter ouvido essas duas histórias. Mas ele confundiu as duas e colocou os Samaritanos no contexto errado. O Alcorão continua:

Disse Moisés: “Afasta-te daqui. Teu quinhão da vida será repetir: ‘Não me toqueis’. E terás um encontro marcado que não falhará. Contempla teu deus a quem te dedicavas. Queimá-lo-emos e lançaremos suas cinzas ao mar”. (Alcorão 20: 97)

É interessante notar que neste verso o Alcorão alude ao fato que os samaritanos foram considerados intocáveis (Teu quinhão será repetir: ‘Não me toqueis’). De fato os Israelitas rebaixaram os Samaritanos e os consideraram “intocáveis” (Najis) por causa de sua idolatria. Não obstante, este estigma não fora reputado a eles por Moisés. Não havia Samaritanos na época de Moisés. Foram designados assim pelos judeus séculos depois.

Isto é outra prova de que o conhecimento de Maomé sobre a Bíblia era de segunda mão e baseado em boatos. Tivesse ele lido a Bíblia alguma vez não teria cometido um erro tão grosseiro.

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Sobre o autor: Ali Sina é o pseudônimo de um ex-muçulmano nascido no Irã, que atualmente mora no Canadá. É um dos críticos mais respeitáveis da religião islâmica e também um dos mais ferrenhos. Fundador do fórum FAITH FREEDOM INTERNATIONAL (http://www.faithfreedom.org), que ajuda ex-muçulmanos em todo o mundo, Ali Sina é autor de várias obras, entre elas Understanding Muhammad (Para entender Maomé), com tradução prevista para esse ano.

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