Defenda o direito de ficar ofendido

rushdie

O texto a seguir é um excerto do artigo “Defend the right to be offended”. Salman Rushdie fala sobre o perigo de ser criarem leis limitantes à liberdade de expressão e que proíbem a crítica ao Islã sob a denominação “incitamento ao ódio por motivos religiosos”. Ele fala da Grã-Bretanha, onde vive, mas traça paralelos com outros países ocidentais.

Texto de Salman Rushdie (2005).

Tradução e adaptação: Khadija Kafir 30-07-2015

(…) O perigo que essa legislação acarreta para a liberdade de expressão, quando diminuída, permanece. Parece que precisamos lutar a batalha do Iluminismo toda de novo na Europa, bem como nos Estados Unidos.

Essa batalha foi sobre o desejo da Igreja de impor limites ao pensamento. O Iluminismo não foi uma batalha contra o Estado, mas contra a igreja. O romance de Diderot La Religieuse (1760), com seu retrato das freiras e seu comportamento, foi deliberadamente blasfemo: ele desafiou a autoridade religiosa, com seus índex e inquisições, dentro do que era possível dizer. A maioria de nossas ideias contemporâneas sobre a liberdade de expressão e imaginação vem do Iluminismo. Podemos ter pensado que a batalha já está vencida. Mas se não tivermos cuidado, ela está prestes a ser derrotada.

Ofensas e insulto são parte da vida cotidiana das pessoas na Grã-Bretanha. Tudo que você tem a fazer é abrir um jornal diário e há muito com que se ofender. Ou pode andar para a seção de livros religiosos de uma livraria e descobrir que você está condenado a vários tipos de torturas eternas no inferno, o que certamente é um insulto, para não dizer que é algo picante.

A ideia de que qualquer tipo de sociedade livre possa ser construída sem que as pessoas nunca sejam ofendidas ou insultadas é um absurdo. Absurda também é a noção de que as pessoas devem ter o direito de invocar a lei para protegê-las de se sentirem ofendidas ou insultadas. A decisão fundamental precisa ser feita: queremos viver em uma sociedade livre ou não? A democracia não é uma festa de chá, onde as pessoas se sentam em círculos para ter uma conversa educada. Nas democracias, as pessoas ficam extremamente chateadas umas com as outras. Argumentam veementemente contra as posições de cada um (mas sem atirar para matar).

Na Universidade de Cambridge me ensinaram um método louvável de argumento: você nunca levar nada para o lado pessoal, mas não é obrigado ter absolutamente nenhum respeito pelas opiniões das pessoas. Você nunca deve ser rude com a pessoa, mas você pode ser barbaramente rude sobre o que a pessoa pensa. Isso me parece uma distinção crucial: as pessoas devem ser protegidas contra a discriminação em virtude da sua raça, mas nada impede que você toque suas ideias. No momento em que você diz que qualquer sistema de ideia é sagrado, quer se trate de um sistema de crença religiosa ou de uma ideologia secular, no momento em que você declara que esse conjunto de ideias é imune à crítica, sátira, escárnio ou desprezo, a liberdade de pensamento se torna impossível.

Agora, com a proposta de lei “para evitar que o ódio seja despertado contra pessoas por causa de suas crenças religiosas”, o governo britânico atual tem a intenção de criar essa impossibilidade. Secretamente seus elaboradores irão lhe dizer que a lei foi concebida para agradar “os muçulmanos”. Mas que muçulmanos, quando e em que dia?

A capacidade desta lei de proteger “os muçulmanos” parece-me discutível. É perfeitamente possível que em vez disso, ela seja usada contra os muçulmanos antes de ser usada contra qualquer outra pessoa. Há grupos identificáveis de racistas e de extrema-direita neste país que argumentam que os muçulmanos são os que incitam o ódio religioso, e esses grupos vão usar (ou tentar usar) esta lei.

(…)

As pessoas têm o direito fundamental de levar um argumento até o ponto em que alguém se ofende com o que elas dizem. Não vale trapacear apoiando a liberdade de expressão só de quem concorda com você. A defesa da liberdade de expressão começa no ponto em que as pessoas dizem algo que você não quer ouvir. Se você não defende o direito de dizer, então você não acredita nessa liberdade. Friedrich Nietzsche chamou o Cristianismo de “a grande maldição” e “o único defeito imortal da humanidade”. Será que hoje ele seria processado?

(…)

__________________________

Sobre o autor: Salman Rushdie é um ex-muçulmano nascido na Índia, mas que vive no Ocidente (Grã-Bretanha e EUA). É um romancista autor de várias obras, porém a mais conhecida delas se chama “Versos Satânicos” (1988), que gerou uma enorme polêmica no mundo muçulmano. Depois que publicou esta obra, O aiatolá Khomeine, líder supremo do Irã nessa época, lançou uma fátua (punição islâmica) contra Rushdie, que exigia a sua morte. Desde então Rushdie precisou viver sob constante proteção de guarda-costas. O jornal britânico The Times o colocou em décimo terceiro lugar na lista dos melhores escritores da Grã-Bretanha desde 1945.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s