FILHO DO HAMAS – A Escada da Fé.

Nota de Khadija Kafir:

Durante trintas anos, o Egito foi governado por um ditador chamado Mubarak. Insatisfeito, o povo foi às ruas exigir que ele deixasse o poder. Acreditando nas boas intenções de um grupo político e religioso, chamado Irmandade Muçulmana, o povo o elegeu. Porém o que aconteceu foi que tal irmandade, que deveria pregar a “pureza” e a “caridade” do Islã com os pobres, se converteu em uma ditadura pior do que a anterior.

Excerto do Livro Filho do Hamas,  de Mosab Hassan Yousef.

O tempo é sequencial, como um fio que cobre a distância entre nascimento e morte. No entanto, os acontecimentos se parecem mais com um tapete persa – milhares de fios das mais lindas cores se entrelaçando para formar complexos padrões e imagens. Qualquer tentativa de colocar os acontecimentos em uma ordem puramente cronológica seria como soltar os fios e organizá-los em uma sequencia linear. Isso poderia ser mais simples, mas o desenho se perderia.

(…)

Entre 1517 e 1923, o Islã, personificado pelo califado otomano, se disseminou por três continentes a partir de sua base na Turquia. Entretanto, após alguns séculos de hegemonia econômica e política, o Império Otomano se tornou centralizado e corrupto, o que levou a seu próprio declínio.

Sob o comando dos turcos, aldeias muçulmanas em todo Oriente Médio ficaram sujeitas a perseguições e tributação opressiva. Istambul era simplesmente longe demais daquela região para que o califa protegesse os fiéis dos abusos dos soldados e das autoridades locais.

No século XX, muitos muçulmanos estavam cada vez mais desiludidos com os preceitos da religião e passaram a adotar um estilo de vida diferente. Alguns se entregaram ao ateísmo dos recém-chegados comunistas. Outros mergulharam seus problemas na bebida, no jogo e na pornografia, introduzidos em grande parte pelos ocidentais, que haviam sido atraídos para a região por causa das riquezas minerais e da crescente industrialização.

No Cairo, capital egípcia, um jovem devoto professor primário chamado Hassan al-Banna chorava por seus compatriotas, pobres, desempregados e ímpios. Ele, porém, culpava o Ocidente, não os turcos, e acreditava que a única esperança para seu povo, em especial para os jovens, era o retorno à pureza e à simplicidade do Islã.

Ele ia aos cafés, subia nas mesas e cadeiras e pregava a todos sobre Alá. Os bêbados zombavam dele. Os líderes religiosos o desafiavam. Mas a maioria das pessoas passou a amá-lo, porque ele lhes dava esperança.

Em março de 1928, Hassan al-Banna fundou a sociedade dos Irmãos muçulmanos, mais conhecida como Irmandade Muçulmana, cujo objetivo era reconstruir a sociedade de acordo com os princípios islâmicos. Num período de 10 anos, todas as províncias egípcias tinham uma filial da organização. Em 1935, o irmão de al-Banna fundou uma divisão da sociedade nos territórios palestinos. Vinte anos depois, a irmandade contava com cerca de meio milhão de adeptos apenas no Egito.

Os integrantes da Irmandade Muçulmana provinham em grande parte das classes mais pobres e menos influentes, mas eram ardorosamente leias à causa. Faziam doações do próprio bolso para ajudar outros muçulmanos, como prega o Alcorão.

No Ocidente, muitas pessoas que têm uma percepção estereotipada dos muçulmanos como terroristas desconhecem a face do Islã que reflete amor e piedade e que cuida dos pobres, das viúvas e dos órfãos. A que promove a educação e o bem estar. A que une e fortalece. Esse é o lado do islã que motivou os primeiros líderes da Irmandade Muçulmana e se reunirem em torno de uma causa comum. É claro que também existe o outro lado, que convoca todos os muçulmanos para a jihad a fim de lutar e enfrentar o mundo inteiro até que se estabeleça um califado global, liderado por um homem santo que governe e fale em nome de Alá. É importante que você entenda e se lembre desses fatos à medida em que este relato avançar.

Em 1948, a Irmandade Muçulmana tentou dar um golpe de Estado contra o governo egípcio, ao qual atribuía a culpa pela crescente secularização da nação. No entanto, o levante foi sufocado antes que pudesse ganhar força, quando o mandato britânico terminou e Israel declarou sua independência como Estado Judeu.

Os muçulmanos em todo o Oriente Médio ficaram indignados. De acordo com o Alcorão, quando um inimigo invade qualquer território muçulmano, todos os seguidores do islamismo são convocados a lutar e defender sua terra. Do ponto de vista do mundo árabe, os estrangeiros haviam invadido e, naquele momento, ocupavam a Palestina, onde está localizada a Mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado da Terra para o Islã, depois de Meca e Medina. A mesquita foi construída no lugar do qual se acredita que Maomé tenha partido, na companhia do anjo Gabriel, para o céu, onde se encontrou com Abraão, Moisés e Jesus.

Egito, Líbano, Síria, Jordânia e Iraque imediatamente invadiram o novo Estado judeu. Entre dez mil soldados egípcios, havia milhares de voluntários da Irmandade Muçulmana. No entanto, a coalizão árabe estava em desvantagem tanto em efetivo quanto em armamento, e menos de um ano depois as tropas árabes foram rechaçadas.

Como consequência da guerra, cerca de 750 mil árabes palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casas nos territórios que se tornaram o Estado de Israel.

Embora a Assembleia Geral das nações Unidas tenha aprovado a Resolução 194, que declarava em parte que “os refugiados que desejassem voltar a suas casas e viver em paz com seus vizinhos deveriam receber permissão para fazê-lo” e que “uma indenização pela propriedade deveria ser paga àqueles que optassem por não retornar”, tal recomendação nunca foi implementada. Dezenas de milhares de palestinos que fugiram de Israel durante a Guerra Árabe-Israelense nunca recuperaram suas casas e suas terras. Muitas dessas pessoas e seus descendentes vivem hoje em miseráveis campos de refugiados controlados pela ONU.

Quando os integrantes da Irmandade Muçulmana, então armados, voltaram do campo de batalha para o Egito, o golpe antes sufocado foi retomado. Entretanto, informações do plano para depor o governo vazaram e as autoridades egípcias baniram a Irmandade, confiscaram os bens e prenderam muitos dos seus integrantes. Aqueles que escaparam de ir para a prisão acabaram assassinando o primeiro-ministro do Egito semanas mais tarde.

Hassam al-Banna, por sua vez, foi assassinado em 12 de fevereiro de 1949, aparentemente pelo serviço secreto egípcio. A Irmandade, porém não foi esmagada. Em apenas 20 anos, Hassan al-Banna tirou o Islã de sua letargia e deu início a uma revolução com combatentes armados. Nos anos seguintes, a organização continuou a se expandir e a aumentar a sua influência entre o povo, não apenas no Egito, mas também na Jordânia e na Síria.

Quando meu pai chegou à Jordânia, em meados da década de 1970, para dar prosseguimento a seus estudos, a Irmandade Muçulmana já estava bem estabelecida por lá e era armada pelo povo. Seus integrantes estavam fazendo tudo que meu pai sempre sonhara em fazer: incentivavam a renovação da fé entre aqueles que haviam se afastado do modo de vida islâmico, cuidavam dos feridos e tentavam salvar as pessoas da influência corrupta da sociedade. Ele acreditava que aqueles homens eram os reformadores religiosos do Islã, como Martinho Lutero e William Tyndale haviam sido para o cristianismo. Eles só queriam salvar as pessoas e melhorar a vida delas, não matar e destruir. Ao conhecer alguns dos primeiros líderes da Irmandade, meu pai disse:

– É exatamente isso que eu estava procurando.

O que meu pai viu nos primeiros líderes da Irmandade Muçulmana foi a face do Islã que reflete o amor e a piedade. O que ele não viu – o que talvez nunca tenha se permitido ver – foi o lado negro do Islã.

A vida islâmica é como uma escada, com preces e louvores a Alá no primeiro degrau. Os degraus mais acima representam a ajuda aos pobres e necessitados, a criação de escolas e o apoio a instituições de caridade. O degrau mais alto é a Jihad.

A escada é comprida, e poucos olham para cima para ver o que está no topo. O progresso, em geral, é gradual, quase imperceptível, como o de um gato que persegue uma andorinha. Ela nunca tira os olhos do gato. Simplesmente fica lá, olhando o gato caminhar para frente e para trás. Mas a andorinha não tem noção de profundidade. Não percebe que o gato está um pouquinho mais perto a cada passo, até que, em um piscar de olhos, as garras do felino estão manchadas com o sangue do pássaro.

Os muçulmanos tradicionais ficam ao pé da escada, vivendo com culpa por não praticar de verdade o que prega o islã. No topo estão os fundamentalistas, aqueles que aparecem nos noticiários por terem matado mulheres e crianças em nome da glória do Deus do Alcorão. Os moderados estão em algum lugar intermediário.

Entretanto, um muçulmano moderado é, na verdade, mais perigoso do que um fundamentalista, porque parece ser inofensivo, porém nunca sabemos quando dará o próximo passo em direção ao topo. É assim, como moderados, que a maioria dos terroristas suicida começa.

No dia em que pôs os pés no degrau mais baixo da escada pela primeira vez, meu pai nunca poderia imaginar a que altura chegaria, se afastando de seus ideais mais genuínos. Trinta e cinco anos depois, eu gostaria de perguntar a ele: você se lembra de onde começou? Você sentiu o coração esmagado ao ver todas aquelas pessoas perdidas e quis que elas se voltassem para Alá em busca de segurança e proteção. E agora, terroristas suicidas e sangue inocente? Foi isso que você se propôs a fazer?

Em nossa cultura, porém, não falamos com o próprio pai a respeito de questões como essas. E assim ele continuou a trilhar aquele perigoso caminho.

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Sobre o autor: Mosab Hassan Yousef é um ex-muçulmano convertido ao Cristianismo. Nascido na região do conflito Árabe-Israelense, Yousef é filho de xeique Hassan Yousef, um dos sete fundadores do grupo terrorista Hamas, e viveu nos bastidores desta organização. A decepção com os objetivos políticos e religiosos do grupo o levou a apostasia e ele se tornou um aliado de Israel. Foi considerado um traidor, mas sua atuação como espião ajudou a evitar inúmero atentados terroristas. Tudo isso é contado em sua autobiografia, o livro Filho do Hamas. Yousef explica que Alá é um deus de ódio e que a única saída para seu povo é rever os seus próprios ensinamentos e começar a pregar o amor.

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