Uma mulher desobediente

Algumas pessoas pensam que ter uma moral é seguir um conjunto de regras sociais ou religiosas. A escritora de Bangladesh Talisma Nasrin discorda. Mas ser honesta consigo mesma tem trazido para si as maldições de uma fátua (punição islâmica).

Texto de Talisma Nasrin. Para ler o original clique aqui.

Tradução de Khadija Kafir (27/06/2015)

Eu sou uma pessoa desobediente. Eu nunca obedeci aos costumes da sociedade. Eu nunca obedeci às leis do Estado. Rejeitando tudo, de maneira indomável- sempre segui o meu próprio momento. Por esta razão as pessoas têm me criticado. Todo tipo de insultos tem sido feito em meu nome. Por toda a parte em que eu fui vista, nas ruas, nos mercados, nos encontros, nas ocasiões públicas, eu tive pedras atiradas em mim e fui abusada. O governo de Bangladesh moveu uma ação contra mim.

Por que eu não segui as regras da sociedade? A resposta jaz em meu sentir de que o tratamento dados às mulheres na minha cultura é inumano. Mas também é impossível tolerar as leis do Estado e o impróprio tratamento das comunidades minoritárias no meu país. E eu tenho protestado contra a crueldade e a barbaridade através dos meus escritos.

Sempre valorizei a racionalidade. Quando eu tinha 13 anos, minha mãe costumava dizer que eu deveria ficar dentro de casa porque era impróprio para as meninas andarem por aí. Ela costumava me mandar recitar as orações, obedecer ao período de jejum e viver atrás do meu véu. Mas eu não via motivo em seguir tudo aquilo. Só por eu ser menina eu estava condenada a viver na clausura, quando os campos lá fora, e nos rios, os meninos da minha idade brincavam alegremente juntos. Isto era algo que eu não podia aceitar. Eu era desobediente a minha mãe. Eu corria dos quartos da minha casa para o espaço abeto sob os céus e os lindos leitos do rio. As pessoas me chamavam de “a menina desobediente”.

Quando eu cresci meus pais e meus parentes tentaram me casar com alguém que eu nunca vira. Eu disse a eles que nunca aceitaria este tipo de casamento. Toda vez que eu via algumas de minhas jovens amigas sendo forçadas a se casarem com alguém que não conheciam, eu as advertia a serem desobedientes. Eu dizia que tinham que fugir antes do noivado, ou então, quando o Kazi (clérigo) perguntasse a elas se queriam se casar, elas deveriam, na frente de todo mundo apenas dizer não.

É importante desobedecer a costumes sociais como esses. Se algo parece ridículo para o próprio entendimento moral, então por que deve ser seguido cegamente? Eu já vi muita mulher que, apesar de ser abusada pelos maridos, ainda continuam a viver com eles porque se elas realmente o deixassem, elas se tornariam aos olhos da sociedade, mulheres decaídas ou arruinadas. Muitas mulheres pensam que deveriam seguir os costumes da sociedade – elas creem não possuir nem a inteligência nem o julgamento moral necessário para distinguir o certo e o errado, nem têm coragem para fazer isso.

Mas os costumes sociais não são o único problema. Há muitas leis em meu país que restringem a liberdade das mulheres. Por exemplo, os casamentos em Bangladesh são baseados em estipulações religiosas. De acordo com a lei um marido pode ter quatro esposas juntas em uma só casa. Nenhuma mulher quer dividir o marido com três outras mulheres. Ainda assim, a maioria das mulheres é limitada por essa lei religiosa. O tipo de consciência necessária para desobedecer a leis religiosas ainda não foi desenvolvido em Bangladesh como foi em outros países.

Escrevi um romance chamado Vergonha no qual eu descrevo a tortura sofrida pela minoria Hindu e causadas pelas comunidades muçulmanas. O governo baniu o livro. Eles disseram que as razões deles para banir o romance foi que seu significado iria ser mal interpretado pelas duas comunidades e iria causar violência entre eles. Na realidade, o ponto crucial do romance é se opor ao senso comum. Sempre fiz isso em meus escritos.

Mais tarde, meu comentário sobre o texto islâmico – o Alcorão- levou o governo a me acusar de atacar os princípios religiosos. A polícia chegou a me levar para a cadeia, mas porque não seria seguro que eu fosse para a cadeia, eu me tornei uma fugitiva, me escondendo por dois meses. Nunca me rendi.

Os membros religiosos da sociedade quiseram me enforcar e, de acordo com a lei islâmica, anunciaram publicamente que queriam me matar. Por toda a parte do mundo, milhões de pessoas foram a procissões e marchas contra mim. Fizeram greve por minha causa e estipularam um preço para quem desse a eles minha cabeça. Eu era desobediente a ambos, a lei do Islã e a do governo. Eu consegui deixar o país com a ajuda de outras pessoas racionais. Continuei a expressar minhas crenças e ideologias em resposta a regras proibitivas e superstições da minha sociedade. Isto é porque a consciência, o julgamento moral e o entendimento que eu tenho mantido não me permitem se curvar diante de qualquer injustiça ou desigualdade.

Os homens poderosos da sociedade e do Estado me chamaram de traidora porque eu acredito que o Leste de Bengal, que pertence a Bangladesh; e o Oeste de Bengal, que é parte da Índia, deveriam ser um só. Nós partilhamos a mesma língua e cultura. Por que o Oriente e Ocidente deveriam ser separados por esferas religiosas? Na minha visão, Bangladesh deveria ser para os bengalis, não importando se eles fossem muçulmanos, hindus, budistas ou cristãos. Mas em dizer isso eu sou acusada de desmerecer a soberania do meu país.

bandeira-de-bangladesh
bandeira de Bangladesh
bangladesh no mundo
Bangladesh no mundo

De maneira clara, a ética desta sociedade e desse Estado é diferente do meu próprio entendimento de ética. Nas sociedades democráticas toda a estrutura política é baseada no principio de que as pessoas são livres para terem diferentes opiniões políticas. Mas quando um estado se opõe a liberdade de expressão, então o tópico da desobediência emerge. Eu devo seguir a vontade deles como uma coisa sem vontade, como uma vaca, ou uma ovelha, ou eu deveria ser desobediente? Para desobedecer, uma pessoa precisa de um forte senso de moralidade e imensa coragem. Nem todo mundo tem isso. O policiamento do governo transforma a maioria das pessoas em vegetais.

Mas eu acredito que quando a consciência da população e o senso de moralidade não pode mais tolerar a crueldade e a opressão então eles automaticamente se juntam e serão capazes de mudar as leis do governo e da sociedade. Na história mundial, as pessoas sempre se levantaram contra o derramamento de sangue e a violência e fizeram o mundo habitável. A ideologia de Mahatma Gandhi despertou conscientização nas pessoas para se juntar ao movimento contra a discriminação racial pelos brancos da América. O código pessoal de ética o colocou em conflito com as leis do seu país.

Qualquer pessoa que, em face da injustiça, permanece de pé em sua própria crença, corre o risco de punição. Alguns podem ser mortos, outros exilados, mas pelo menos são leais a si mesmos. A história tem mostrado a nós quantas pessoas vivendo sob os nazistas abandonaram sua própria moral individual e matou milhões em campos de concentração. Sua desculpa era a de estar obedecendo a ordens do governo. As polícias de todos os lugares do mundo a quem se ordena que atirem contra pessoas em protestos contra o governo irão oferecer a mesma desculpa: eles abandonam seu próprio senso de certo e errado e levam a cabo tais ordens porque eles acham que é seu dever fazer isso. Aqueles policiais que desobedecem a tais ordens têm que enfrentar a perda de seus empregos, prisões e perseguições pelo resto da vida. Em cada idade tem havido aqueles que abaixaram a cabeça para o regime tirânico e outros que foram expulsos para combatê-la.

Diferentes sociedades têm diferentes morais. Cada padrão moral de sociedade é relativo e depende da situação financeira, estrutura política, religião, educação e cultura. Quem quer que tire sua educação ética somente da religião irá defender qualquer prática inumana daquela religião como boa ou certa. Como indivíduos, nós devemos usar nosso próprio código de ética como vareta orientadora. Em minha opinião, a razão, a inteligência, a consciência e o coração são as qualidades necessárias para adquirir bom entendimento moral. É importante seguir as regras de seu país até um determinado ponto. Mas quando a religião ou o Estado ataca a moral individual de alguém, então é construtivo ser desobediente.

Parece a mim que em muitas partes do mundo é mais fácil protestar do que já foi no passado. A estrutura da sociedade nunca foi fixada, está sempre mudando. Se as pessoas não analisarem a estrutura de suas sociedades ela se torna uma lagoa estagnada. Porque existe um impulso corrente por mudanças, os humanos e suas sociedades estão sempre marchando para frente. O senso econômico, político, moral e social estão aumentando, assim como nossas perspectivas. E a desobediência moralmente inspirada tem um importante papel nesse progresso.

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Sobre a autora: Talisma Nasrin é uma ex-muçulmana lésbica nascida em Bangladesh. Formada em Medicina, Nasrin é mais conhecida no mundo por seus escritos e suas críticas à religião islâmica e sua nefasta influência na opressão das mulheres. Em sua autobiografia, intitulada Amar Meyebela, relata sua sofrida infância e faz críticas a Maomé, o que lhe valeu represálias e proibição de vender o livro. Nasrin se define como humanista secular, e não tem hoje nenhum tipo de crença.

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