A Jaula das Virgens

Excerto do livro A Virgem na Jaula, de Ayaan Hirsi Ali. Capítulo 3 – A jaula das virgens.

Tradução e adaptação Khadija Kafir

(…)

Os problemas como agressão, estagnação econômica e científica, repressão, epidemias e insatisfação social, que são enfrentados pela maior parte dos 1,2 bilhão de muçulmanos espalhados pelos cinco continentes não podem ser explicados por apenas uma ou duas causas. Uma complexa combinação de fatores, algumas vezes regionais, evoluiu ao longo do tempo. Entre eles está a moral sexual islâmica, uma moralidade de origem tribal, alçada à condição de dogma do islamismo. Essa explicação é rara na literatura existente. Essa moralidade pré-moderna foi sancionada no Alcorão e, posteriormente, desenvolvida nas tradições do profeta Maomé. Para muitos muçulmanos, essa moralidade se expressa em uma obsessão pela virgindade. A obsessão pelo domínio sobre a sexualidade feminina não se limita ao islã, e é também evidente em outras religiões (por exemplo, entre os cristãos, judeus e hindus). No entanto, o desenvolvimento moderno dessas outras culturas religiosas não foi tão prejudicado quanto o dos muçulmanos. O valor atribuído à virgindade é grande a ponto de eclipsar as catástrofes humanas e os custos sociais resultantes.

As meninas muçulmanas costumam aprender que “uma garota com o hímen rompido é como um objeto usado”. E, uma vez usado, um objeto torna-se permanentemente imprestável. Uma moça que tenha perdido o “selo de não usada” não encontrará marido e estará condenada a terminar seus dias na casa dos pais. Além disso, quando o defloramento se dá fora do matrimônio, os familiares da moça estarão desonrados até o décimo grau de parentesco e serão motivos de comentários maldosos por parte das outras famílias. Dirão que a família é conhecida por suas mulheres promíscuas, que se entregam “ao primeiro homem que aparece”. Por isso, a moça é punida pela família. As punições vão desde insultos à expulsão ou ao confinamento, podendo chegar até mesmo a um casamento forçado com aquele que a deflorou ou com algum “homem generoso” disposto a encobrir a vergonha familiar. Estes podem ser muitas vezes pobres, débeis mentais, velhos, impotentes ou tudo isso ao mesmo tempo. Em casos extremos, a garota é assassinada, muitas vezes pela própria família. As Nações Unidas relatam que, a cada ano, 5 mil jovens são mortas por esse motivo, em países islâmicos, inclusive na Jordânia, citada com tanta frequência como um regime “liberal”.

Na tentativa de evitar esse destino cruel, as famílias muçulmanas fazem todo o possível para garantir que o hímen de suas filhas permaneça intacto até o casamento. Os métodos variam de acordo com o país, as circunstâncias específicas e os meios disponíveis. Mas, em toda parte, as medidas se dirigem às jovens dotadas de hímen e não os homens capazes de rompê-los.

Há pouco tempo, o porta voz do Ministério da Justiça da Turquia, o professor Dogan Soyasian, declarou que todos os homens desejam casar-se com uma virgem, e que aqueles que o negam seriam hipócritas. Ainda se aconselha às jovens estupradas a se casarem com seus agressores, com o argumento de que o tempo cura todas as feridas. A seu tempo, a mulher aprenderá a amar quem a estuprou, e a união poderá ser muito feliz. Porém, caso a mulher tenha sido violentada por vários homens, o casamento terá menor chance de sucesso, pois seu marido a verá como uma mulher desonrada.

No que se refere à sexualidade, a cultura islâmica vê os homens como feras terríveis, irresponsáveis e imprevisíveis, que perdem de imediato todo o autocontrole ao ver uma mulher. Isso me lembra uma experiência que tive ainda bastante jovem. Minha avó tinha um bode. Estávamos brincando na frente de casa quando, no fim da tarde, pouco antes de escurecer, todas as cabras da vizinhança voltavam para casa em uma longa procissão. Era uma visão encantadora. Mas logo que avistou as cabras, o bode de vovó galopou em sua direção e montou na primeira que conseguiu alcançar. A nós crianças, aquilo pareceu muito cruel. Quando perguntamos à vovó o que o bode estava fazendo, ela respondeu que aquilo não era problema dela: se os vizinhos não quisessem que suas cabras fossem montadas, deveriam leva-las para casa por outro caminho. O Islã representa seus homens como aquele bode; quando veem uma mulher descoberta, saltam imediatamente sobre ela.

(…)

Por essa razão, as meninas têm de se cobrir, tornando-se invisível. E por isso, sentem-se constantemente culpadas e envergonhadas, pois é quase impossível levar uma vida normal e ser invisível aos homens. As meninas sempre pensam que estão fazendo algo de errado. Têm cercada não apenas a sua liberdade externa de ir e vir, mas também a interna. Certa vez minha tia pôs uma peça de carneiro para secar ao sol. A carne atraiu fileiras de moscas. Titia disse: “Os homens são iguais a essas moscas e formigas: quando veem uma mulher, não conseguem conter o desejo”. Vi a gordura derreter ao sol, enquanto os insetos se fartavam. Restou um rastro de sujeira.

(…)

Tudo isso se torna uma profecia auto realizável; um homem muçulmano não tem por que aprender a se controlar. Ele não precisa e não é ensinado a fazê-lo. A moral sexual destina-se exclusivamente às mulheres, sempre culpadas por qualquer descuido.

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Sobre a autora: Ayaan Hirsi Ali é uma ex-muçulmana nascida na Somália que se tornou famosa ao publicar uma autobiografia intitulada Infiel- a história de uma mulher que desafiou o Islã. Também é autora de outros livros: A Virgem na Jaula e Nômade. Porém seu mais novo livro chama-se Herege – por que o Islã precisa de uma reforma imediata. Todos os seus livros são publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras. Ayaan Hirsi Ali é a mais notória das pessoas que criticam o Islã e faz frequentes aparições na mídia em todo o mundo.

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